,
de Filipe Abranches, inspirado no filme FITZCARRALDO, de Werner
Herzog, é o quinto album da colecção de banda desenhada O Filme da Minha
Vida que a Ao Norte edita.
A colecção
faz-se do repto lançado a dez autores portugueses de BD para que produzissem
um álbum inspirado num filme que tenha deixado marcas nas suas vidas. Este
cruzamento entre a sétima e nona arte é vocacionado para os amantes de ambas
e, principalmente, dirigida aos jovens que frequentam o ensino secundário e
superior.
A apresentação
do álbum conta com a projecção do filme escolhido, a apresentação do livro,
uma exposição dos originais e um encontro com o autor.
Caderno de
Bordo
,
João Paulo Cotrim
(...) A mão faz-se líquida e
vai compondo as cenas em despenteio tão gráfico como os cabelos de Kinski.
Os chapéus de palha do cais que se desfazem no horizonte do barco dão o tom.
O resto acontecerá como dança entre tracejamento e massas de negro. De um
lado a taquicardia nervosa e espontânea, como a chuva ou a omnipresente
humidade. Do outro, o drama e a força que irrompe do negro (motores,
chaminés, música, mão de obra, massa do navio, sombras). O traço
apresenta-se em cada página com a ligeireza de um beija-flor, a voracidade
de uma piranha, o enigmático perfil de um boto. Os negros são as descargas
eléctricas. Assim desenha quem ali esteve e agora nos transporta através dos
que contam, pequenos cenários que misturam com saber e sabor a fotografia
com o cinema com o cenário com o desenho, talvez científico.
Tudo se passa no navio, que é
um mundo, há que insistir (e inúmeras são as convenções a bordo de um navio
que no-lo dizem). Por vezes assume rosto de monstro (com o nome Molly-Aida a
fazer de lábios, que belas personagens contêm tais nomes!). Neste pequeno
formato o épico não está nas paisagens, mas nos detalhes, nos rostos, no
encontro das matérias, nos movimentos capturados, nas mãos que se dão, no
rosto final de Fitzcarraldo: perdido no céu, talvez feliz. Eis o
conquistador do inútil, que ele e Herzog usavam como apresentação. O inútil
da arte que pode ainda vestir de branco no meio da lama, que rema doença e
desespero para chegar a tempo de ouvir Caruso, que responde com árias ao
silêncio da selva, e do mundo. Também Hugo Pratt, outro monumento que
percorreu a Amazónia, afirmava como seu o «desejo de ser inútil». Esta
minúscula e pouco conhecida arte das histórias aos quadradinhos pode bem ser
um meio de unir rios, de rasgar mundos: um inútil portátil.
Filipe Abranches
[n.1965, Lisboa] Licenciado em Realização pelo curso de Cinema da Escola
Superior de Teatro e Cinema. É professor no departamento de Ilustração/Banda
Desenhada do Ar.Co desde 2005. Foi docente da ESAP (Escola Superior
Artística do Porto – pólo de Guimarães) entre 2006 e 2008, tendo aí sido o
coordenador do Mestrado em Ilustração. Inicia a actividade em bd na revista
LX Comics no início dos anos 90, tendo colaborado com os colectivos
independentes Amok (Paris) e Freon (Bruxelas). É ilustrador do semanário
Expresso e publicou ilustrações em diversos jornais: Público, Le Monde
(França), O Independente e I (informação). Destacam-se os seguintes álbuns
publicados: História de Lisboa (edições em Portugal, França e Itália), O
Diário de K. e Solo. Ilustrou o livro Obra Poética Completa de Edgar Allan
Poe, edições Tinta-da-china (2009). Realizou acções de formação na área da
Banda Desenhada, numa parceria Instituto Português do Livro e das
Bibliotecas/Ministério da Cultura/Bedeteca de Lisboa, 2002. Orientou
ateliers e workshops para as escolas durante o Salão de Lisboa de Banda
Desenhada 2003. Foi-lhe atribuído um subsídio do ICAM para a realização da
curta-metragem de animação “Pássaros”, recebendo o prémio Restart para
melhor realização de curta-metragem portuguesa no Festival IndieLisboa 2009.
Ganhou novo subsídio do ICA para a curta-metragem de animação “Sanguetinta”.
Diversas bolsas e presenças no estrangeiro destacando-se: bolsa de Criação
Literária para bd atribuída pelo Instituto Português do Livro e das
Bibliotecas/Ministério da Cultura, 1998; residência artística em Bruxelas no
âmbito do projecto Atelier de l´Échangeur Narratif/Récits de Ville,
organizado pelo colectivo Freon, co-produção Bruxelles 2000; autor convidado
no Salon du Livre de Paris 2000; bolsa Découverte atribuída pelo Centre
National du Livre de France, 2001. Uma retrospectiva da sua obra de bd teve
lugar no 17º Festival Internacional de BD da Amadora em 2006.
FITZCARRALDO
de Werner Herzog
SINOPSE
No final do
século XIX, no apogeu do ciclo da borracha, o aventureiro Brian Sweeney
“Fitzcarraldo” Fitzgerald, fã do tenor italiano Enrique Caruso, sonha em
construir um teatro de ópera na Amazônia peruana. Para realizar seu sonho,
faz com que centenas de índios arrastem um navio a vapor de 160 toneladas
pelo coração da selva amazônica.
FICHA
TÉCNICA
Título
Fitzcarraldo Título original Fitzcarraldo Realizador
Werner Herzog Produção Werner Herzog Filmproduktion
Argumento
Werner Herzog
Fotografia Thomas Mauch
Som Petra Mantoudis Cenografia Henning von Gierke
Música Florian Fricke (Popol
Vuh), Richard Strauss, Giuseppe Verdi, Leoncavallo, Meyerbeer,
Michel Vuylsteke, Jules Massenet, Giacomo Pucinni, Vincenzo
Bellini, gravações originais de Enrico Caruso Montagem
Beate Mainka-Jellinghaus Intérpretes Klaus Kinski (Fitzcarraldo),
Claudia Cardinale (Molly), José Lewgoy (Don Aquilino), Paul
Hittscher (Capitão), Huerequeque (Huerequeque), Miguel Angel
Fuentes (Cholo), Rui Polanah (Don Araújo)
Ano 1982 País Alemanha Duração 150’
Werner Herzog
(o nome verdadeiro é Werner H. Stipetic) nasceu em Munique a 5 de Setembro
de 1942. Durante os estudos superiores trabalhou de noite como soldador numa
fábrica de aço para produzir os primeiros filmes. Estreou-se atrás da câmara
em 1961. Em 1965 venceu o prémio Carl Mayer para o argumento de Feuerzeichen.
Em 1968 realizou a sua primeira longa metragem, Lebenszeichen. Produziu,
escreveu e realizou mais de 50 filmes, encenou óperas e publicou livros.